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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O rouxinol e a rosa


"Ela disse que dançaria comigo se eu lhe trouxesse rosas vermelhas", exclamou o jovem Estudante, "mas em todo o meu jardim não há nenhuma rosa vermelha."

Do seu ninho no alto da azinheira, o Rouxinol o ouviu, e olhou por entre as folhas, e ficou a pensar.

"Não há nenhuma rosa vermelha em todo o meu jardim!", exclamou ele, e seus lindos olhos encheram-se de lágrimas. "Ah, nossa felicidade depende de coisas tão pequenas! Já li tudo que escreveram os sábios, conheço todos os segredos da filosofia, e no entanto por falta de uma rosa vermelha minha vida infeliz."

"Finalmente, eis um que ama de verdade", disse o Rouxinol. "Noite após noite eu o tenho cantado, muito embora não o conhecesse: noite após noite tenho contado sua história para as estrelas, e eis que agora o vejo. Seus cabelos são escuros como a flor do jacinto, e seus lábios são vermelhos como a rosa de seu desejo; porém a paixão transformou-lhe o rosto em marfim pálido, e a cravou-lhe na fronte sua marca."

"Amanhã haverá um baile no palácio do príncipe", murmurou o jovem Estudante, "e minha amada estará entre os convidados. Se eu lhe trouxer uma rosa vermelha, ela há de dançar comigo até o dia raiar. Se lhe trouxer uma rosa vermelha, eu a terei nos meus braços, e ela deitará a cabeça no meu ombro, e sua mão ficará apertada na minha. Porém não há nenhuma rosa vermelha no meu jardim, e por isso ficarei sozinho, e ela passará por mim sem me olhar. Não me dará nenhuma atenção, e meu coração será destroçado."

"Sim, ele ama de verdade", disse o Rouxinol. "Aquilo que eu canto, ele sofre; o que para mim é júbilo, para ele é sofrimento. Sem dúvida, o Amor é uma coisa maravilhosa. É mais precioso do que as esmeraldas, mais caro do que as opalas finas. Nem pérolas nem romãs podem comprá-lo, nem é coisa que se encontre à venda no mercado. Não é possível comprá-lo de comerciante, nem pesá-lo numa balança em troca de ouro".

"Os músicos no balcão", disse o jovem Estudante, "tocarão seus instrumentos de corda, e meu amor dançará ao som da harpa e do violino. Dançará com pés tão leves que nem sequer hão de tocar no chão, e os cortesãos, com seus trajes coloridos, vão cercá-la. Porém comigo ela não dançará, porque não tenho nenhuma rosa vermelha para lhe dar." E jogou-se na grama, cobriu o rosto com as mãos e chorou.

"Por que chora ele?", indagou um pequeno Lagarto Verde, ao passar correndo com a cauda levantada.

"Sim, por quê?", perguntou uma Borboleta, que esvoaçava em torno de um raio de sol.

"Sim, por quê?", sussurrou uma Margarida, virando-se para sua vizinha, com uma voz suave.

"Ele chora por uma rosa vermelha", disse o Rouxinol.

"Uma rosa vermelha?", exclamaram todos. "Mas que ridículo!" E o pequeno Lagarto, que era um tanto cínico, riu à grande.

Porém o Rouxinol compreendia o segredo da dor do Estudante, e calou-se no alto da azinheira, pensando no mistério do Amor.

De repente ele abriu as asas pardas e levantou vôo. Atravessou o arvoredo como uma sombra, e como uma sombra cruzou o jardim.

No centro do gramado havia uma linda Roseira, e quando a viu o Rouxinol foi até ela, pousando num ramo.

"Dá-me uma rosa vermelha", exclamou ele, "que cantarei meu canto mais belo para ti".

Porém a Roseira fez que não com a cabeça.

"Minhas rosas são brancas", respondeu ela, "tão brancas quanto a espuma do mar, e mais brancas que a neve das montanhas. Porém procura minha irmã que cresce junto ao velho relógio de sol, e talvez ela possa te dar o que queres."

Assim, o Rouxinol voou até a Roseira que crescia junto ao velho relógio de sol.

"Dá-me uma rosa vermelha", exclamou ele, "que cantarei meu canto mais belo para ti."

Porém a Roseira fez que não com a cabeça.

"Minhas rosas são amarelas", respondeu ela, "amarelas como os cabelos da sereia que está sentada num trono de âmbar, e mais amarelas que o narciso que floresce no prado quando o ceifeiro ainda não veio com sua foice. Porém procura minha irmã que cresce junto à janela do Estudante, e talvez ela possa te dar o que queres."

Assim, o Rouxinol voou até a Roseira que crescia junto à janela do Estudante.

"Dá-me uma rosa vermelha", exclamou ele, "que cantarei meu canto mais belo para ti."

Porém a Roseira fez que não com a cabeça.

"Minhas rosas são vermelhas", respondeu ela, "vermelhas como os pés da pomba, e mais vermelhas que os grandes leques de coral que ficam a abanar na caverna no fundo do oceano. Porém o inverno congelou minhas veias, e o frio queimou meus brotos, e a tempestade quebrou meus galhos, e não darei nenhuma rosa este ano."

"Uma única rosa vermelha é tudo que quero", exclamou o Rouxinol, só uma rosa vermelha! Não há nenhuma maneira de consegui-la?"

"Existe uma maneira", respondeu a Roseira, "mas é tão terrível que não ouso te contar."

"Conta-me", disse o Rouxinol. "Não tenho medo."

"Se queres uma rosa vermelha", disse a Roseira, "tens de criá-la com tua música ao luar, e tingi-Ia com o sangue de teu coração. Tens de cantar para mim apertando o peito contra um espinho. A noite inteira tens de cantar para mim, até que o espinho perfure teu coração e teu sangue penetre em minhas veias, e se torne meu."

"A Morte é um preço alto a pagar por uma rosa vermelha", exclamou o Rouxinol, "e todos dão muito valor à Vida. É agradável, no bosque verdejante, ver o Sol em sua carruagem de ouro, e a Lua em sua carruagem de madrepérola. Doce é o perfume do pilriteiro, e as belas são as campânulas que se escondem no vale, e as urzes que florescem no morro. Porém o Amor é melhor que a Vida, e o que é o coração de um pássaro comparado com o coração de um homem?"

Assim, ele abriu as asas pardas e levantou vôo. Atravessou o jardim como uma sombra, e como uma sombra voou pelo arvoredo.

O jovem Estudante continuava deitado na grama, onde o Rouxinol o havia deixado, e as lágrimas ainda não haviam secado em seus belos olhos.

"Regozija-te", exclamou o Rouxinol, "regozija-te; terás tua rosa vermelha. Vou criá-la com minha música ao luar, e tingi-la com o sangue do meu coração. Tudo que te peço em troca é que ames de verdade, pois o Amor é mais sábio que a Filosofia, por mais sábia que ela seja, e mais poderoso que o Poder, por mais poderoso que ele seja. Suas asas são da cor do fogo, e tem a cor do fogo seu corpo. Seus lábios são doces como o mel, e seu hálito é como o incenso.

O Estudante levantou os olhos e ficou a escutá-lo, porém não compreendia o que lhe dizia o Rouxinol, pois só conhecia as coisas que estão escritas nos livros.

Mas o Carvalho compreendeu, e entristeceu-se, pois ele gostava muito do pequeno Rouxinol que havia construído um ninho em seus galhos.

"Canta uma última canção para mim", sussurrou ele; "vou sentir-me muito solitário depois que tu partires."

Assim, o Rouxinol cantou para o Carvalho, e sua voz era como água jorrando de uma jarra de prata.

Quando o Rouxinol terminou sua canção, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um caderno e um lápis.

"Forma ele tem", disse ele a si próprio, enquanto se afastava, caminhando pelo arvoredo, "isso não se pode negar; mas terá sentimentos? Temo que não. Na verdade, ele é como a maioria dos artistas; só estilo, nenhuma sinceridade. Não seria capaz de sacrificar-se pelos outros. Pensa só na música, e todos sabem que as artes são egoístas. Mesmo assim, devo admitir que há algumas notas belas em sua voz. Pena que nada signifiquem, nem façam nada de bom na prática." E foi para seu quarto, deitou-se em sua pequena enxerga e começou a pensar em seu amor; depois de algum tempo, adormeceu.

E quando a Lua brilhava nos céus, o Rouxinol voou até a Roseira e cravou o peito no espinho. A noite inteira ele cantou apertando o peito contra o espinho, e a Lua, fria e cristalina, inclinou-se para ouvir. A noite inteira ele cantou, e o espinho foi se cravando cada vez mais fundo em seu peito, e o sangue foi-lhe escapando das veias.

Cantou primeiro o nascimento do amor no coração de um rapaz e de uma moça. E no ramo mais alto da Roseira abriu-se uma rosa maravilhosa, pétala após pétala, à medida que canção seguia canção. Pálida era, de início, como a névoa que paira sobre o rio - pálida como os pés da manhã, e prateada como
as asas da alvorada. Como a sombra de uma rosa num espelho de prata, como a sombra de uma rosa numa poça d' água, tal era a rosa que floresceu no ramo mais alto da Roseira.

Porém a Roseira disse ao Rouxinol que se apertasse com mais força contra o espinho. Aperta-te mais, pequeno Rouxinol", exclamou a Roseira, "senão o dia chegará antes que esteja pronta a rosa."

Assim, o Rouxinol apertou-se com ainda mais força contra o espinho, e seu canto soou mais alto, pois ele cantava o nascimento da paixão na alma de um homem e uma mulher.

E um toque róseo delicado surgiu nas folhas da rosa, tal como o rubor nas faces do noivo quando ele beija os lábios da noiva. Porém o espinho ainda não havia penetrado até seu coração, e assim o coração da rosa permanecia branco, pois só o coração do sangue de um Rouxinol pode tingir de vermelho o coração de uma rosa.

E a Roseira insistia para que o Rouxinol se apertasse com mais força contra o espinho. "Aperta-te mais, pequeno Rouxinol", exclamou a Roseira, "senão o dia chegará antes que esteja pronta a rosa."

Assim, o Rouxinol apertou-se com ainda mais força contra o espinho, e uma feroz pontada de dor atravessou-lhe o corpo. Terrível, terrível era a dor, e mais e mais tremendo era seu canto, pois ele cantava o Amor que é levado à perfeição pela Morte, o Amor que não morre no túmulo.

E a rosa maravilhosa ficou rubra, como a rosa do céu ao alvorecer. Rubra era sua grinalda de pétalas, e rubro como um rubi era seu coração.

Porém a voz do Rouxinol ficava cada vez mais fraca, e suas pequenas asas começaram a se bater, e seus olhos se embaçaram. Mais e mais fraca era sua canção, e ele sentiu algo a lhe sufocar a garganta.

Então desprendeu-se dele uma derradeira explosão de música. A Lua alva a ouviu, e esqueceu-se do amanhecer, e permaneceu no céu. A rosa rubra a ouviu, e estremeceu de êxtase, e abriu suas pétalas para o ar frio da manhã. O Eco vou-a para sua caverna púrpura nas montanhas, e despertou de seus
sonhos os pastores adormecidos. A música flutuou por entre os juncos do rio, e eles leva ram sua mensagem até o mar.

"Olha, olha!", exclamou a Roseira, "a rosa está pronta." Porém o Rouxinol não deu resposta, pois jazia morto na grama alta, com o espinho cravado no coração.

E ao meio-dia o Estudante abriu a janela e olhou para fora.

"Ora, mas que sorte extraordinária!", exclamou. "Eis aqui uma rosa vermelha! Nunca vi uma rosa semelhante em toda minha vida. É tão bela que deve ter um nome comprido em latim." E, abaixando-se, colheu-a.

Em seguida, pôs o chapéu e correu até a casa do Professor com a rosa na mão.

A filha do Professor estava sentada à porta, enrolando seda azul num carretel, e seu cãozinho estava deitado a seus pés.

"Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha", disse o Estudante. "Eis aqui a rosa mais vermelha de todo o mundo. Tu a usarás junto ao teu coração, e quando dançarmos ela te dirá quanto te amo."

Porém a moça franziu a testa.

"Creio que não vai combinar com meu vestido", respondeu ela; "e, além disso, o sobrinho do Tesoureiro enviou-me jóias de verdade, e todo mundo sabe que as jóias custam muito mais do que as flores."

"Ora, mas és mesmo uma ingrata", disse o Estudante, zangado, e jogou a rosa na rua; a flor caiu na sarjeta, e uma carroça passou por cima dela.

"Ingrata!", exclamou a moça. "Tu é que és muito mal-educado; e quem és tu? Apenas um Estudante. Ora, creio que não tens sequer fivelas de prata em teus sapatos, como tem o sobrinho do Tesoureiro." E, levantando-se, entrou em casa.

"Que coisa mais tola é o Amor!", disse o Estudante enquanto se afastava. "É bem menos útil que a Lógica, pois nada prova, e fica o tempo todo a nos dizer coisas que não vão acontecer, e fazendo-nos acreditar em coisas que não são verdade. No final das contas, é algo muito pouco prático, e como em nossos tempos ser prático é tudo, vou retomar a Filosofia e estudar Metafísica."

Assim, voltou para seu quarto, pegou um livro grande e poeirento, e começou a ler.


Oscar Wilde.


  Eu chorei tanto enquanto lia esse conto, que por acaso se tornou um dos meus favoritos, que precisava colocar ele aqui.
...
Se não caiu uma lágrima do seu olho, ou se não sentiu absolutamente nada lendo, você não tem um coração, ok? E a pessoa que todo mundo fala que não tem um que está dizendo isso, ok? Ok.

domingo, 10 de junho de 2012

Em Busca da Fortuna

 Imagem 

  Para entrar logo na história: havia uma velha que tinha uma galinha. Assim como a dona, a galinha era bastante idosa e muito boa de serviço: todo dia ela botava um ovo. A velha tinha um vizinho, um velho desgraçado que roubava o ovo quando ela saía. A pobre velha ficava de olho para pegar o ladrão, mas nunca conseguia e, como não queria acusar ninguém, teve a ideia de perguntar ao Sol Imortal.
  No caminho ela encontrou três irmãs: as três eram solteironas. Quando a viram, correram-lhe ao encontro para perguntar aonde estava indo. Ela lhes contou o que estava acontecendo. "E agora", acrescentou, "vou perguntar ao Sol Imortal e descobrir o filho-da-puta que rouba meus ovos, fazendo uma maldade dessas com uma pobre velha cansada." Ao ouvirem isso, as solteironas se mostraram muito interessadas:
  "Ah, tia, por favor, pergunte sobre nós, pergunte porque não conseguimos nos casar." "Está bem", a velha disse. "Vou perguntar e talvez ele me dê ouvidos."
  Então ela seguiu em frente e encontrou uma velha tremendo de frio. Quando a velha a viu e ficou sabendo aonde ela ia, começou a supiplicar: "Peço, senhora, que pergunte também sobre mim; por que será que não consigo me esquentar, ainda que use quatro casacos de pele, um por cima do outro?". "Está bem", a velha respondeu. "Vou perguntar a ele. Mas como posso ajudá-la?"
  E então ela seguiu caminho e chegou a um rio; ele corria turvo e escuro feito sangue. Ainda de muito longe ela ouviu o som raivoso dele, e as suas pernas fraquejaram de medo. Quando o rio a viu, também lhe perguntou, na sua voz brutal e furiosa, aonda estava indo. Ela lhe contou o que tinha para contar. O rio lhe disse: "Se é assim, pergunte-lhe sobre mim também: que diabos há comigo, que não consigo correr sossegado?". "Está bem, meu caro rio, está bem", a velha disse, tão apavorada que mal sabia como continuar.
  E assim ela prosseguiu seu caminho e chegou a uma pedra gigantesca, havia muitos e muitos anos pendurada, sem poder cair nem deixar de cair. A pedra pediu a velha que perguntasse o que a estava oprimindo de forma que não pudesse cair e ficar sossegada, deixando de assustar os passantes. "Está bem", a velha disse. "Vou perguntar a ele. Não é muita coisa para perguntar e posso assumir essa tarefa. "
  Ao dizer isso, a velha percebeu que já estava muito tarde e disparou a correr feito uma condenada! Ao chegar ao cume da montanha, ela viu o Sol Imortal penteando a barba com seu pente de ouro. Tão logo a viu, ele lhe deu as boas vindas, ofereceu-lhe uma cadeira e perguntou porque o procurava. A velha lhe contou o quanto vinha sofrendo por causa dos ovos da sua galinha: "E eu me jogo a seus pés e imploro", ela disse. "Diga-me quem é o ladrão. Eu gostaria de saber, porque assim eu não ia continuar amaldiçoando-o de forma tão desesperada e carregando esse peso na minha alma. E, por favor, olhe aqui: eu lhe trouxe um lenço cheio de peras do meu pomar e uma cesta cheia de pãezinhos." Então o Sol Imortal lhe disse: "O homem que rouba os seus ovos é o seu vizinho. Trate de não lhe dizer nada. Deixei-o a mercê de Deus, e o homem vai receber o que merece."
  "Quando vinha para cá", a velha disse ao Sol Imortal, "encontrei três solteironas e ela me rogaram: 'pergunte sobre nós, por que será que não conseguimos um marido?'." "Entendo o que quer dizer", o Sol disse. "Mas elas não são moças com quem alguém queira casar. Elas são meio preguiçosas; não têm mãe nem pai que as orientem, então todo dia começam a varrer a casa sem antes borrifar água no chão, depois metem a vassoura e enchem meus olhos de poeira. Já estou por aqui com elas! Não as suporto. Diga-lhes que daqui por diante devem levantar antes do amanhecer, borrifar o chão com água e depois varrer, e logo conseguirão um marido. Você não precisa mais pensar nelas ao seguir o seu caminho."
  "Aí uma velha me fez um pedido: 'Pergunte a ele porque não consigo me esquentar mesmo que esteja usando quatro casacos de pele um sobre o outro'." "Diga a ela que dê dois desses casacos de esmola, em proveito de sua alma, e aí ela vai se esquentar."
  "Vi também um rio turvo e escuro feito sangue; sua corrente era cheia de redemoinhos. O rio me pediu: 'Pergunte sobre mim; que devo fazer para correr tranquilo?'". "O rio deve afogar um homem, e então ficará sossegado. Quando você voltar lá, primeiro atravesse o rio e só depois conte a ele o que falei, senão o rio vai tomar você como presa."
  "Vi também uma pedra grande: há muitos anos que ela está lá pendurada, e não consegue cair." "Essa pedra deve matar um homem e então ficará tranquila. Quando voltar lá, primeiro passe pela pedra e só depois lhe conte o que eu lhe disse."
  A velha se levantou, beijou a mão dele, despediu-se e desceu a montanha. No caminho, ela chegou à pedra, que a estava esperando como se tivesse cinco olhos. A velha apressou o passo, passou pela pedra e então lhe disse o que tinha de dizer. Quando a pedra ouviu que deveria cair e matar um homem, ficou furiosa; ela não sabia o que fazer. "Ah", ela disse à velha. "Se você tivesse dito antes, eu teria caído em cima de você." "Que todos os meus problemas passe para você", a velha disse e - por favor me desculpem - deu uma palmada no próprio traseiro.
  Seguindo seu caminho, ela chegou próximo ao rio e, pelo barulho que ele fazia a velha percebeu o quanto estava agitado e esperando que ela lhe contasse o que o Sol lhe dissera. Ela apressou o passo, atravessou o rio e então contou o que o Sol Imortal lhe dissera. Quando o rio ouviu a resposta, tomou-se de tal fúria que suas águas ficaram mais turvas do que nunca. "Ah", o rio disse. "Por que eu não soube disso antes? Então eu tiraria sua vida, pois você não passa de uma velha que ninguém quer." A velha ficou tão assustada que nem se voltou para olhar o rio.
  Não tinha andado muito e já começava a ver a fumaça subindo dos telhados da aldeia e a sentir o cheiro de comida que lhe chegava ao nariz. Sem perda de tempo, procurou a velha que não conseguia se aquecer e lhe disse o que tinha de dizer. A mesa acabara de ser posta, então a velha se sentou e comeu com eles: era uma deliciosa comida de Páscoa, e se vocês a tivessem comido, iriam lamber os dedos de tão boa que estava.
  Então ela foi procurar as solteironas. Desde que a velha as deixara, as moças não pararam de pensar nela. Não acendiam o fogo da casa nem o apagavam? ficavam o tempo todo de olho na estraa para ver se a velha estava voltando. Logo que as viu, a velha foi se sentar com elas e lhes explicou que deveriam fazer o que o Sol Imortal recomendara. A partir desse dia começaram a levantar ainda de noite, borrifavam o chão e o varriam, e então os pretendentes começaram a aparecer, uns de um lugar, outros de outro. Todos vinham pedi-las em casamento. Então todas conseguiram um marido e viveram felizes.
  Quanto à velha que nunca conseguia se esquentar, ela deu dois de seus casacos de pele para benefício de usa alma, e imediantamente se sentiu aquecida. O rio e a pedra tiraram cada um a vida de um homem, e encontraram a paz.
  Ao voltar para casa, a velha encontrou o velho à beira da morte. Ao ver que a velha partira ao encontro do Sol Imortal, ele ficou tão assustado que lhe aconteceu uma coisa terrível: cresceram-lhe penas de galinha no rosto. Não se passou muito tempo, e ele logo partiu para aquela grande aldeia de onde ninguém volta. Depois disso os ovos nunca mais sumiram, e a velha continuou a comê-los até a morte, e, quando ela morreu, a galinha morreu também.


Conto grego.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Agora eu riria, se não estivesse morto

  Certa vez duas mulheres começaram a discutr para saber qual dos maridos era mais estúpido. Finalmente resolveram, de comum acordo resolveram fazer uma experiência para ver se eles eram tão estúpidos quanto pareciam. Uma delas armou a seguinte tramóia: quando o marido chegou do trabalho, ela pegou uma roca, um cardador e, depois de se sentar, começou a cardar e a fiar sem lã, mas nem o camponês nem ninguém viu nenhuma lã nas suas mãos. Observando isso, o marido perguntou se ela estava louca a ponto de cardar e fiar sem lã, lhe pediu para que explicasse o que estava acontecendo. A mulher disse que seria muito improvável que ele cosneguisse ver o que estava fazendo, pois se tratava de um tecido tão fino que os olhos não podiam enxergar. Era com esse tecido que iria lhe fazer as roupas. Ele achou essa explicação bastante satisfatória, admirou-se muito da inteligência da mulher e ficou muito feliz já antevendo a alegria e o orgulho que teria com aquelas roupas. Depois de fiar - segundo ela disse - o bastante para fazer as roupas, armou o tear e teceu o pano. De vez em quando o marido ia olhar, admirando-se da habilidade de sua boa esposa. Ela estava se divertindo muito com a história toda e se apressou em executar o plano da melhor forma. Tirou o tecido do tear, depois de pronto, lavou-o, apisoou-o e finalmente começou a trabalhar, cortando-o e fazendo as roupas com ele. Quando ela disse ter terminado o trabalho, chamou o marido para provar as suas roupas finas, mas não ousou deixá-lo expeerimentá-las sozinho, por isso o ajudou. Ela fingiu vesti-lo  com as roupas finas e, embora o coitado na verdade estivesse nu, acreditou piamente que estava enganado e que sua esposa lhe fizera magníficas roupas finas. Aquilo o deixou tão satisfeito que não conseguiu se conter e começou a pular de alegria.
  Agora vamos falar da outra mulher. Quando o marido chegou do trabalho, ela lhe perguntou porque diabos ele estava de pé e andando. O homem ficou perplexo e disse: "Por que pergunta isso?". Ela o convenceu que estava muito doente e lhe disse que era melhor ir para cama. Ele acreditou nisso e foi para cama o mais rápido que pôde. Passado algum tempo, a mulher disse que iria preparar os funerais. Ele perguntou por que e lhe implorou para que não fizesse isso." Por que você fica agindo feito um idiota? Você não sabe que morreu esta manhã? Vou mandar fazer o seu caixão agora mesmo". Então o pobre homem, acreditando que aquilo fosse verdade, ficou quieto até ser colocado no caixão. A mulher marcou o dia do enterro, contratou seis homens para carregar o caixão e pediu ao outro casal que acompanhasse seu querido marido até o túmulo. Ela mandara fazer uma janelinha no lado do caixão, para que o marido pudesse ver tudo que passava à sua volta. Quando chegou a hora de levar o caixão, o homem nu chegou, achando que todo mundo iria admirar suas roupas finas. Mas longe disso: embora os carregadores estivessem abatidos, ninguém conseguiu controlar o riso ao ver o imbecil pelado. Quando o homem que estava no caixão viu o outro, gritou o mais alto que pôde: "Agora eu riria, se não estivesse morto!". O enterro foi adiado, e deixaram o homem sair do caixão.


Conto Islandês